Locke

Locker

Ivan Locke (Tom Hardy) é um pai de família dedicado e engenheiro bem-sucedido na área de concretagem. Na véspera do maior desafio de sua carreira recebe um telefonema que colocará em cheque tudo aquilo que construiu para a sua vida.

A partir desse telefonema Locke tem que optar rapidamente por uma prioridade e seguir um caminho para atendê-la, mesmo que seja em detrimento de outras coisas que ele tanto estima, mas que mesmo assim não deixará lutar por elas enquanto segue o seu rumo. Para ele trata-se em fazer o certo, mesmo que não seja o mais cômodo para a situação.

O filme acompanha praticamente em tempo real a viagem noturna e solitária de uma hora e meia de Locke pela estrada em direção à Londres, enquanto ele tenta resolver sua vida usando apenas o telefone.

Tom Hardy literalmente carrega do filme sozinho em uma grande interpretação, visto que toda história se passam com ele dentro do carro interagindo apenas com as vozes dos outros atores. Isso quando também tem que passar os sentimentos de seu personagem em momentos de silêncio.

Interessante que apenas com a voz o filme consegue construir a personalidade dos outros personagens, bem como toda uma particularidade de como Locke se relaciona com cada um deles.

Em fim, trata-se de uma produção de escopo simples, mas excepcional no modo em que é conduzida. Impressionante que com tão pouco o filme consegue prender a atenção do espectador, apresentando uma trama singela, mas de tamanha verossimilhança com a vida.

Nota: 8,0/10

IMDb: 7,1/10 – Metacritic: 8,1/10
Rotten Tomatoes Audiência: 7,2/10 – Crítica: 7,7/10—Top Crítica: 8,1/10

Ligações:
Até o Fim – tag: “contracenando sozinho”.
Por Um Fio – tag: “resolvendo a vida pelo telefone”.

Ficha Sintética:
Nome original: Locke
Ano: 2013
Direção e roteiro: Steven Knight
Estrelando: Tom Hardy (Mad Max: Fury Road, The Drop)

Fuck Chicago!

Mad Max: Estrada da Fúria

“Aonde devemos ir, nós que peregrinamos por este deserto, em busca do melhor de nós mesmos?”

mad max

Em um mundo colapsado por um cataclisma nuclear, num cenário desértico onde a humanidade está quebrada, Max Rockatansk (Tom Hardy) vaga sozinho.

No entanto, ele acaba sendo capturado e, posteriormente, levado por um comboio em perseguição a um carro de guerra dirigido pela Imperatriz Furiosa (Charlize Theron).

Acontece que Furiosa empreendeu fuga de Cidadela, um local governado sob o véu da teocracia por Immortan Joe, levando consigo algo insubstituível e de inestimável valor para ele.

Ensandecido o Immortan Joe mobiliza seu exército de devotos, convoca as tribos vizinhas (Vila da Gasolina e Fazenda da Bala) para iniciar uma caçada à rebelada Furiosa através do deserto.

À primeira vista, Mad Max: Fury Road parece mais um filme de ação em meio a tantos outros. Entretanto, ele é um respiro para a mesmice que tomou conta do gênero nos últimos anos. Em vários aspectos.

Primeiro que a ação não é construída na pós-produção. As sequências foram concebidas no próprio set de filmagens, com os carros em movimento, locações reais, dublês e efeitos práticos. E isso faz toda a diferença para que as cenas sejam inteligíveis ao espectador.

Evidente que a computação gráfica está presente, mas foi utilizada dosadamente e de modo subsidiário. Não há, por exemplo, a corriqueira prática de escurecer a fotografia do filme para melhor disfarçar a inserção elementos digitais. Pelo contrário, Mad Max é bem solar, usa cores quentes para melhor explorar a ambiente desértico e o azul nas cenas noturnas.

Outro diferencial é que o filme não menospreza o espectador. Nada de explicar tim-tim por tim-tim porque as coisas são do jeito que estão apresentadas. Toda uma mitologia é apresentada fora da trama principal através do designer, direção de arte e contextos.

É possível interpretar, por exemplo, que nesse futuro distópico depois da água, petróleo e armas, agora são os seres humanos saudáveis que passam a ser o principal objeto de desejo do mundo, pois não adianta ter poder com o monopólio de alguma das commodities tradicionais se não há sobre quem governar e a quem transmitir legado.

Immortan Joe tem filhos defeituosos, uma população envelhecida e um grande contingente de meias-vidas, denominação dada a população de jovens com baixíssima expectativa de vida. E Furiosa lhe roubou a sua maior esperança de gerar filhos saudáveis.

Outrossim, nos é mostrado uma grande coisificação do homem como amas de leite reduzidas a vacas leiteiras, doadores a bolsas de sangue, mulheres férteis a parideiras e meias-vidas a homens-bomba “kami-crazy”.

O filme também traz uma grande crítica ao fundamentalismo religioso, mostrando para tal uma nova religião que se desenvolveu naquele mundo. A primeira vista pode até parecer risível, pois explora gostos pessoais de Immortan Joe, como junk food, heavy metal e automobilismo, mas ela é capaz de doutrinar a mente jovens para que esses estejam dispostos a morrerem pelo seu líder, buscando garantir um lugar além dos portões de Valhala.

Por último, e talvez o maior diferencial de Mad Max: Estrada da Fúria é o tratamento digno que deu as mulheres. Em outras palavras, o filme justifica a presença das personagens feminais por elas mesmas, tendo suas próprias questões na história.

A mulher não aparece como uma figura acessória, como ferramenta de roteiro que serve apenas de tensão sexual ou interesse amoroso ao personagem masculino, ou mesmo para preencher cotas em meio a uma multidão de homens tal como normalmente acontece nos filmes de ação, e muito menos “masculinizada” para participar da ação como se homem fosse.

Em fim, um grande filme, que devolve uma sensação de entusiasmo pelo cinemão de matine, da tela grande e som estrondoso. Sensação perdida ao longo de anos com filmes formulaicos, pragmáticos e que pouco se arriscam para inovar, tanto na forma, quanto no conteúdo.

Nota: 9,5/10

IMDb: 8,6/10 – Metacritic: 8,9/10
Rotten Tomatoes Audiência: 8,8/10 – Crítica: 8,7/10 – Top Crítica: 8,6/10

Ligações:
Mad Max – tag: “o melhor do Mad Max antigo”.
Dredd – tag: “futuro distópico pós-nuclear”, “ação honesta”.

Ficha Sintética:
Mad Max: Fury Road
Ano: 2015
Direção: George Miller
Roteiro: George Miller, Brendan McCarthy e Nick Lathouris.

Estrelando:
Tom Hardy, Charlize Theron, Nicholas Hoult e Hugh Keays-Byrne.
Riley Keough, Rosie Huntington-Whiteley, Zoë Kravitz, Abbey Lee e Courtney Eaton.
Nathan Jones, Josh Helman, Richard Carter, John Howard, Megan Gale, Melissa Jaffer, Jennifer Hagan e Iota.

Mary e Max: Uma Amizade Diferente

mary e max

Mary e Max mostra uma inusitada história de amizade construída pela troca de correspondências entre uma menina australiana e um adulto novaiorquino.

Essa amizade inicia quando Mary, acompanhando sua mãe numa ida aos correios, acaba por se entreter com uma lista telefônica de Nova Iorque encontrada no local. Imaginando como seriam a vida daquelas pessoas listadas com nomes tão estranhos, ela tem uma ideia. Escreveria para um dos americanos e perguntaria de onde vinham os bebês naquele país. Assim, aleatoriamente seleciona o endereço de Max como destinatário de sua carta.

Apesar de iniciar com uma pergunta tão ingênua, o que se segue nada tem nesse tom. Trata-se de uma animação adulta cheia de humor ácido, ironia e sacarmo. Os dois personagens são solitários e deprimidos, Mary sofre por falta de autoestima, Max tem síndrome de asperger que lhe proporciona intensas crises de ansiedade que são descontadas na comida.

O filme inicia no ano de 1972 avança com a Mary entrando na vida adulta e Max chegando na velhice, mostrando durante esse período os percalços que a vida impôs a Max e impõe a Mary.

A animação se vale da estética do grotesco, um stop motion cujo os modelos de massinha possuem texturas averrugadas e formas imperfeitas. Entende-se por grotesco aqui no sentido do que é taxado como ridículo por não ser o normal/comum, justamente como a dupla protagonista do longa.

Outro ponto que merece destaque é como o filme explora o poder descritivo de uma carta, principalmente em tempos que a comunicação é tão imediata que se perde todo o entorno que envolve a escrita, um consumo tão banal da troca de mensagens que acaba empobrecendo texto e interpretação por emissores e receptores.

Em fim, uma história tocante e delicada, que mostra um pouco do universo daqueles que são levados a se acharem fracos por não serem capazes de resolverem seus os problemas sozinhos, visto que a depressão não se encaixa na ideia do que significa ser um homem na nossa sociedade e quem sofre desse mal acaba coagidos a se reduzirem a seres invisíveis.

Nota: 8,5/10

MDb: 8,2/10
Rotten Tomatoes Audiência: 8,4/10
Rotten Tomatoes Crítica: 8,1/10

Ligações:
As Vantagens de Ser Invisível – tag: ser invisível.

Ficha Sintética:
Mary and Max
Ano: 2009
Direção e roteiro: Adam Elliot.
Vozes: Toni Collette, Philip Seymour Hoffman, Eric Bana e Barry Humphries.